




Radiohead - 7 de Junho de 2008.
Fotogramas de coisas simples que trago comigo. Coisas que quero agarrar, fechar num globo de neve, e guardar bem para não fugirem.
Sim, amigos, foi há um ano. Lisboa frágil de música, poesia e a primavera.
Incrivelmente inteligente para a sua idade e cheia de respostas perspicazes na ponta da língua. Menina de trato irónico, olhar sereno e postura descontraída. Atributos que fazem parte do tudo que (pre)enche a pequena Juno de contradições. A mais recente: um bebé aos 16 anos. “ Um rabisco que não pode ser desfeito, minha”, diz o vendedor da loja onde compra mais um dos muitos testes de gravidez ( o incrível Riann Wilson). Não, não estamos perante mais um filme para adolescentes – suspiramos.
Juno não recorre ao aborto, os pais reagem aparentemente bem à confissão seguida de um comunicado sobre a certeza de querer dar o filho para adopção, tem a ajuda incondicional da melhor amiga e enfrenta de forma descomplexada a sociedade que lhe crava os olhos. Uma reacção associada à figura de menina forte e, quem sabe, ao ponto a que as coisas chegaram hoje em dia, um ponto estranho para muitos mas, sobretudo, livre. “Hello, I’d like to procure a hasty abortion”. Expressões que passaram a ser chamadas de junismos.
Nunca poderemos comparar Juno a um a A Little Miss Sunshine mas sabemos que a carrinha amarela do filme com mais sumo concentrado dos últimos tempos lhe abriu portas, lhe deu este lugar nos Óscares e sobretudo nas principais salas de cinema. Sabemos que Juno e Leah são uma espécie de irmãs (bem) mais novas de Thora Birch e Scarlett Johansson, em Ghost World, que tanto trabalharam a sensibilidade do espectador para filmes “dark and funny”: filmes fixes, com miúdas muito à frente (da sua idade), com vidas carimbadas por ícones que vão dos anos 50 aos 80. Um caminho também feito por filmes como Garden State, onde os parvos são gente apaixonante e com sentimentos bonitos. Tentativas mal concretizadas por muitos dos filmes de Domingo à tarde.
Mais que a última personagem representada por Ellen Page, Juno é a nossa nova amiga. Tem 16 anos e está grávida - como milhares de outras jovens – pensamos. E quê? Ela é a primeira a não querer dar ênfase ao pânico que pode haver nisso mas sim à sorte que pode estar à espreita em tudo o resto. Apesar de tudo e por mais que Juno apareça no ecrã como uma pequena guerreira de armadura de ferro não perdemos vontade lhe dar um abraço. Afinal é uma menina, tem 16 anos, esteve grávida e decidiu dar o filho para adopção.
…a banda sonora do nosso país.Quando se ouve um homem que fala tanto com a guitarra, imaginamo-lo um ser tímido que comunica sobre tudo com as mãos. Mas Carlos Paredes não é assim.
Movimentos Perpétuos, o filme documental realizado por Edgar Pêra sobre o guitarrista português, é a prova disso. A narração é feita por Paredes, através das longas conversas que tinha com os espectadores, nos seus concertos. O concerto no Auditório Carlos Alberto, no Porto, em 1984, é o ponto de partida para o desenrolar de histórias de prisão, resistência, sucessos e amadorismo, relatos marcados pela simplicidade e pela paixão. Falam-nos ainda amigos e conhecidos que fizeram parte, de uma forma ou de outra, da sua vida, que o descrevem como um homem simples, muito simples, de uma humildade exagerada, do seu “ ar de quem quase pede desculpa por existir”, de “ quem lamentava o passado nas suas músicas mas sempre com esperança no futuro.” A grande diferença entre as notas de Paredes e as de muitos fadistas ou artistas que retratam as pedras da nossa calçada, a esperança.
O trabalho e a precisão de Edgar Pêra são bons. A articulação entre a música que sai dos dedos desvairados de Paredes e a imagem é milimetricamente sincronizada. E o recorrer à impureza das imagens em Super 8 pertinente. Contudo, justificava-se um pouco menos do experimentalismo, às vezes quase perturbador, tendo em conta que o tributado é Paredes.
Sem dúvida, uma boa aposta do PANORAMA. Um documentário obrigatório (como outros tantos) para qualquer português, e que o facto de estar inserido em cartazes como este acaba por fazer desta uma óptima oportunidade para o vermos.