




Nuno Markl a mostrar mais uma vez o quão é genial.
Fotogramas de coisas simples que trago comigo. Coisas que quero agarrar, fechar num globo de neve, e guardar bem para não fugirem.
…a banda sonora do nosso país.Quando se ouve um homem que fala tanto com a guitarra, imaginamo-lo um ser tímido que comunica sobre tudo com as mãos. Mas Carlos Paredes não é assim.
Movimentos Perpétuos, o filme documental realizado por Edgar Pêra sobre o guitarrista português, é a prova disso. A narração é feita por Paredes, através das longas conversas que tinha com os espectadores, nos seus concertos. O concerto no Auditório Carlos Alberto, no Porto, em 1984, é o ponto de partida para o desenrolar de histórias de prisão, resistência, sucessos e amadorismo, relatos marcados pela simplicidade e pela paixão. Falam-nos ainda amigos e conhecidos que fizeram parte, de uma forma ou de outra, da sua vida, que o descrevem como um homem simples, muito simples, de uma humildade exagerada, do seu “ ar de quem quase pede desculpa por existir”, de “ quem lamentava o passado nas suas músicas mas sempre com esperança no futuro.” A grande diferença entre as notas de Paredes e as de muitos fadistas ou artistas que retratam as pedras da nossa calçada, a esperança.
O trabalho e a precisão de Edgar Pêra são bons. A articulação entre a música que sai dos dedos desvairados de Paredes e a imagem é milimetricamente sincronizada. E o recorrer à impureza das imagens em Super 8 pertinente. Contudo, justificava-se um pouco menos do experimentalismo, às vezes quase perturbador, tendo em conta que o tributado é Paredes.
Sem dúvida, uma boa aposta do PANORAMA. Um documentário obrigatório (como outros tantos) para qualquer português, e que o facto de estar inserido em cartazes como este acaba por fazer desta uma óptima oportunidade para o vermos.
Ficamos alerta se ouvimos dizer que Paul Thomas Anderson escreveu e vai realizar um novo filme. Por Magnólia, Boggie Nights e Coffee & Cigarettes. Pelos fantásticos videoclips de Fiona Apple ( fast as you can, limp, paper bag, across the universe). Por exemplo.
Californication - 2007Acabei de ver o último episódio da série Californication.
Devo dizer que vi os doze episódios em muito pouco tempo. Como se de um livro se tratasse. As primeiras páginas foram-se entranhando e as seguintes desapareceram, em contagem decrescente, noite dentro.
Californication não tem nada de novo. É uma série sobre um escritor em crise, que vai de Nova Iorque para Los Angeles à procura das palavras que não encontra há sete anos, sem perceber que pelo caminho perdeu o amor da mulher.
Californication tem algo de velho. Um actor que um dia já nos fez companhia no grande ecrã: David Duchovny. Este, encarna Hank Moody, um personagem delicioso que marca o regresso do “american coolfatherfucker”. Uma mistura de “badmothafucker”, que vive rodeado de mulheres que facilmente descarta. De pai ‘cool’ e estremoso que nos delicia com a sua relação de amizade com a filha de doze anos, uma menina-promessa Rock Star. De companheiro arrependido, por ter deixado desvanecer uma relação de anos, que luta com uma retórica sublime contra o seu novo ‘rival’, que vive com a certeza que um dia vai voltar a ter o seu amor e a sua família reunida.
Um bom exercício de guionismo no que cabe à construção de um personagem tipo. Uma grande representação de David Duchovny. Só por nos ter dado a conhecer esta nova personagem (que me trouxe barrigadas de riso e que acabou com a seriedade extrema que punha em Fox Mulder), Californication já valeu muito a pena. E tendo em conta que o resto também não está nada mau. Eu, recomendo.
Marie Antoinette - Sofia Coppola - 2006
É normal que em tantos anos de cinema as estórias já tenham sido todas contadas. O cinema, cada vez mais, deixa de dar toda a importância ao fim dos filmes. O ponto mais alto do gráfico, o clímax, passa a ser assinalado no meio da linha. Um filme não passa só pelo “quê” mas por “como” contar - relembramos. Uma boa prova disso é a cada vez mais comum recorrência a títulos que revelam os filmes. Estou a falar, também, do brilhante retorno ao Western pelas câmaras de Andrew Dominik, pela pele de Brad Pitt e pelo rosto de Casey Affleck.
“Contado ninguém acredita” (Stranger than fiction) é mais um filme sobre o quotidiano rotineiro a que muitos se rendem, sobre o despertar para o ‘viver a vida’, sobre a realização de sonhos. Um todo que só tem sentido se existir amor. Realidade para a qual o personagem desperta, quase sempre, sob ameaça de doença ou morte.
“Contado ninguém acredita” é um filme sobre Harold Crick (Will Ferrell) e o seu relógio. Sobre uma escritora brilhante (Emma Thompson, vénia)
Que o cinema se faça de filmes como este.
Nas últimas semanas recebi a visita do Kai, o meu amigo Japonês. Devido à minha disponibilidade temporal nesses dias, foi possível viajar com ele pelo país e mostrar-lhe alguns dos belos recantos que temos.
Nunca pensei que Portugal fosse um país com o nome ainda tão presente na ilha nipónica. Desde pequeninos que os japoneses aprendem o nosso país nas aulas de historia devido à época em que o Japão esteve fechado ao mundo apenas mantendo relações com Portugal.
Foram dias maravilhosos em que passamos por Vila Verde (como não podia deixar de ser ;) ), Braga, Guimarães, Porto, Coimbra, Lisboa e Sintra. É sempre bom perceber as percepções de alguém que vê Portugal pela primeira vez, principalmente de alguém tão atento e sensível como o Kai.
É sempre bom fazer o paralelo entre a vila onde nasci e os seus dois mil habitantes e Tóquio. Perceber que na capital japonesa há um famoso cruzamento de passadeiras onde cada vez que o sinal fica verde passam cinco mil pessoas. Que andar de carro só é possível com GPS e outras coisas, tão naturais para eles, e que para mim mais pareciam saídas do dicionário dos absurdos. Dos bons, pois tenho uma grande fascínio pela cultura nipónica.
Ficam aqui alguns registos ‘fotográmicos’ desses belos dias pelos caminhos de Portugal.

"Na mercearia do bairro, forrada a prateleiras e com os preços numa caligrafia do antigo exame da quarta classe, o diálogo repete-se. O Sr. Manuel quer colocar a fruta num saco transparente e este dentro de um outro saco, de alças e opaco. Declino. O Sr. Manuel insiste. O Sr. Andrade, na sua exígua papelaria numa subcave, tem sempre saco para o jornal. Tal como o Sr. Manuel, trata-me pelo nome, conhece os hábitos, sabe ao que venho. Mas nem um nem outro fixam: Não ao saco! Nas bombas de gasolina ? que mais parecem bazares ?, um pão com queijo embalado já rende um saquito. Compra-se um livro, ganha-se um saco. Um alfinete, outro saco. É a saga do saco. Experimente ir comprar umas meias. Diga que não quer saco, que as guarda no bolso ou na carteira. Será olhado de lado. Mas se recusar o saco porque já traz um de casa? Escândalo! Será olhado não de lado, mas de alto a baixo, visto como um sovina atoleimado pré-capitalista. Uma aberração. O saco de plástico é um problema global, mas Pina Baush, nos anos 90, dizia que o acessório dos portugueses, a sua característica, era o saquinho. Antes do Natal em Outubro, do sistema de pontos e do dinheiro de plástico, este ícone do consumismo era raro. Lavava-se, dobrava-se e guardava-se numa gaveta da cozinha. Era estimado, tal como a embalagem de manteiga já vazia, reutilizada para guardar restos no frigorífico. Agora não há restos. Só excesso. No hipermercado, os sacos estão aos montes, novos em folha e à borla. Depois, acumulam-se em casa, amarfanhados uns dentro dos outros. Quando já são demais, borda fora. Se for preciso ainda se compram sacos do lixo, sacos com fecho para congelação, sacos para cubos de gelo, etc. Duas mil toneladas de sacos de plástico consumidas anualmente em Portugal. O saco de plástico é ubíquo. Serve para transportar compras, pôr o lixo, a roupa suja. Nos campos dá para fazer espantalhos e na neve até serve para esquiar. Mas também está nos rios e oceanos, pendurado nas árvores, pelos passeios, a entupir esgotos, a causar cheias, a rechear as barrigas de animais. Práticos, leves e impermeáveis, são o símbolo da cultura de conveniência. Uma ilusão. Aparentemente baratos ? ou gratuitos para o consumidor ? custam milhões de barris de petróleo e apenas uma pequena fracção é reciclada. Aparentemente higiénicos, sujam a paisagem e as águas. Há mais plástico do que plâncton. Proporção de 6-1. Cada vez que uma ave ou um animal marinho procura alimento, é provável que ingira comida de plástico. Literalmente. Os sacos têm uma vida breve e uma morte longa. Em média são utilizados durante 12 minutos. Demoram centenas de anos a decomporem-se. Sabe quantos sacos de plástico já usou ao longo de toda a sua vida? Milhares. Todos eles continuarão por cá muito depois de nós termos desaparecido. Os sacos foram banidos, total ou parcialmente, na Austrália, África do Sul, China, Bangladesh, em vários países europeus e em algumas cidades dos EUA. Em Portugal, onde a poluição é uma preocupação para apenas 10 % da população ? enquanto que na Suécia é 58% ? a solução não será fácil, como demonstra o recuo do governo, que desistiu de cobrar uma taxa por saco, sucumbindo à pressão da indústria e das grandes superfícies. Talvez uma taxa não fosse a melhor via. Existem outras, como as campanhas ou disponibilizar sacos reutilizáveis. Embora, diga-se em abono da verdade, na Irlanda, o saco-pago fez cair o consumo em 90 %. No supermercado aqui do bairro, onde os sacos «custam dinheiro», muitos clientes trazem os seus sacos de compras (expressão que caiu em desuso, tal como ir à praça de cesto). O preço do saco é baixo. Mas é suficiente. Com ou sem as medidas do governo ou dos comerciantes, faça você mesmo. Não saia para a rua sem saco. E se alguém insistir, saque do seu saco. Se alguém escarnecer, responda com um sorriso. Pode ser de plástico." Uma crónica consciente que retrata pontos que me incomodam, também,no dia-a-dia. Trazida ao papel por uma menina que gosto muito. No jornal onde mais uma vez o meu caro amigo fez capa. :) |